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sábado, 23 de fevereiro de 2013

O problema mais sério agora não é Yoani



É impressionante como hoje em dia militantes extremistas ainda defendem os ideais autoritários cubanos como se seus governantes ainda tivessem a mesma ideologia que tinham quando tomaram Cuba do domínio americano. É certo que Cuba alcançou patamares na educação, por exemplo, que o Brasil está longe de chegar como o nível de analfabetismo em 0,2% e o sistema público de saúde considerado um dos mais eficazes do mundo, no entanto vemos o custo pago pela sociedade cubana para viver, sim viver sem voz e abaixo da linha da pobreza tendo uma cota para comprar, sobretudo, alimentos e se quiserem não passar fome têm que apelar para o mercado ilegal.
Aquele mesmo problema enfrentado por essa sociedade que via diferença no tratamento e nas regalias oferecidas com estabelecimentos destinados a receber turistas e a classe mais abastada e os destinados a atender cubanos, como acontecia no regime pré-revolução pode ser visto ainda hoje. Não há respeito pela opinião, liberdade de expressão é coisa de oposicionistas, talvez nem precise dizer que jornalistas assim como o curso de jornalismo são desvalorizados. Será que esses mesmos militantes que aqui estão hostilizando Yoane Sànchez a chamando de traidora e algumas coisinhas mais teriam esse mesmo direito, o de se expressar, caso se mudassem para a sua tão amada Cuba ou ainda será que conseguiriam viver sob o domínio repressor do governo que defendem com tanta voracidade? É possível que só sobrevivessem se fizessem parte da cúpula governamental, a mesma que transfere cargos de poder e confiança para membros da mesma família. Seria o poder hereditário ou o mesmo nepotismo que bem conhecemos aqui no Brasil?
Enquanto Yoane se sente privilegiada em ter a oportunidade de dizer alguma coisa sem com isso ser perseguida em nosso país, aqui temos a oportunidade de nos expressar, reclamar, opinar para mudar situações, e mesmo assim não o fazemos, preferimos dizer que não adianta nada e nos acomodar deixando a cargo de governantes a decisão de melhorar ou não os problemas de nossa sociedade enquanto vemos pessoas morrendo de fome e cheirando cola nas ruas, morrendo nos sistema público e privado de saúde, nas ruas e em casa assaltados, sequestrados, desrespeitados enquanto políticos aumentam seus próprios salários a 62% (ou mais) e o povo rebola para multiplicar o microssalário aumentado em 7% e tem que render para sustentar famílias de 3 a 7 pessoas.
Essa mulher luta para ter o direito de falar, opinar, se opor ao que ela acha injusto, não se posicionar contra uma ideologia, mas uma realidade. O fato é que a mesma ideia motivacional para o movimento revolucionário contra um capitalismo opressor e oportunista enfrentado por Fidel, Raul e Che Guevara quando se uniram a um exército não é mais a mesma ou podemos dizer que já desapareceu.
A frase exaustivamente divulgada na imprensa dita por Yoane que diz: “Isso me deixou apaixonada – a liberdade que o povo transpira, a possibilidade de dizer sim ou não, contra ou a favor. Acredito que é um sentimento que vou levar para minha ilha.” Traduz para nós brasileiros que mesmo os adeptos do Fidelismo tentando fazer o já fazem com ela em seu país ela não vê como manifestações passíveis de rejeição, mas de um direito garantido por lei e um privilégio que ela almeja para o seu povo. Ela ainda se maravilha com os manifestantes gritando lá fora a chamando de Yanke dizendo: “Foi um banho de democracia e pluralidade, estou muito feliz e queria que em meu país pudéssemos expressar opiniões e propostas diferentes com essa liberdade.”  
Manisfestações de indignação são positivas, mostram que no Brasil há forma de mobilizar e mudar a sociedade e nossos problemas colocando o povo na rua, não influenciados por uma emissora de tevê, mas por vontade própria. Então porque será que até hoje não vimos essa mesma mobilização para tirar corruptos de seus lugares tidos como perpétuos ou pressionar aqueles a quem demos o poder para diminuir a pobreza, o descaso com as pessoas madrugando e morrendo em hospitais que mais parecem açougues, entre outras tantas coisas absurdas e desumanas que presenciamos todos os dias e fingimos não ver até que passamos pelo mesmo sofrimento? Virou moda apedrejar aqueles que não aceitam aquilo que é visto pelo outros como normal? São algumas das questões que a sociedade democrática do Brasil se nega a tentar responder.

Por Denize Santos

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